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Série Round 6: Inspiração real e inadequada para crianças

A série fenômeno do momento reflete a realidade da Coréia do Sul, mas também tem impacto negativo no psicológico das crianças

18/10/2021 09h00 Atualizada há 2 meses
Por: Stéffany Santos
Série Round 6: Inspiração real e inadequada para crianças

Se você é adepto de plataformas de streaming, participa de um grupo no whatsapp, ou tem o hábito de navegar nas redes sociais, com certeza já ouviu falar na série do momento, a Round 6

Apesar do conteúdo ultraviolento, Round 6 cativou o público no mundo todo, se tornando a série mais vista da Netflix em pelo menos 90 países, cerca de 111 milhões de espectadores.

O drama leva os espectadores a uma jornada de suspense ao longo de nove episódios, em que um grupo de pessoas atoladas em dívidas e infortúnios pessoais participam de uma série de seis jogos de sobrevivência, inspirados em jogos tradicionais infantis sul-coreanos.

A trama reflete problemas sociais reais da Coréia do Sul. O endividamento das famílias na Coreia do Sul aumentou acentuadamente nos últimos anos, chegando a superar 100% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — o maior da Ásia.

Os 20% mais ricos do país têm um patrimônio líquido 166 vezes maior que os 20% mais pobres, uma disparidade que aumentou em 50% desde 2017.

Como medida para evitar o endividamento da população, em agosto, o governo sul-coreano anunciou novas medidas de restrição a empréstimos com o objetivo de reduzir a dívida entre os jovens.

Os millennials e aqueles que estão na faixa dos 30 anos são os que mais devem em relação à sua renda.

Mas as tentativas de restringir os empréstimos levaram algumas pessoas a recorrer a credores com custos e riscos mais elevados.

Essa escolha deixa muitos à mercê dos cobradores de dívidas, se por uma pequena mudança de circunstâncias não conseguirem honrar os pagamentos.

Embora poucos possam se ver nas mãos de gângsteres que ameaçam tirar seus órgãos para vender, como mostrado em Round 6, o fardo de uma dívida avassaladora é um problema social que se aprofunda — sem mencionar a principal causa de suicídio na Coreia do Sul.

A série, porém, não se limita a mostrar apenas desigualdade financeira, mas também outras questões sociais, como a exploração de trabalhadores, a desvalorização dos desertores norte-coreanos que se refugiaram no país, além da crítica ao cristianismo devido ao o rápido desenvolvimento da Coreia do Sul durante as décadas de 1970 e 1980 e sua conexão com o crescimento da igreja na época.

A corrupção era abundante entre os políticos e famílias chaebol (enormes grupos empresariais dominados por famílias) que serviam como presbíteros da igreja enquanto desviavam fundos e construíram seus impérios privados.

Como era de se esperar, a desilusão com alguns membros da elite política e da igreja levou muitas pessoas a um país cada vez mais laico a contestar a veracidade da alegação do cristianismo de servir aos pobres e oprimidos na Coreia do Sul.

Mas os problemas sociais representados na série não são exclusividades sul-coreanas. 

Pessoas de diferentes sociedades no mundo todo podem se identificar com os personagens de Round 6, seus problemas e sua humanidade.

Economias semelhantes à Coreia do Sul estão enfrentando vários dos mesmos desafios, exacerbados pela pandemia em curso.

Round 6 lembra brutalmente aos vencedores de cada fase, e à audiência global da série, que aqueles que são bem-sucedidos geralmente têm êxito às custas daqueles que fracassaram por fraqueza, discriminação, uma má decisão ou simplesmente falta de sorte.

O consumo da série pelas crianças

Além de ser uma produção extremamente violenta, como vimos acima, a série Round 6 tem uma carga muito forte de questões sociais e psicológicas para o consumo infantil. 

Devido a presença dos conteúdos de violência, sexo e suicídio apresentados na série, a classificação etária da produção é 16 anos. Apesar disso, está também na boca das crianças e até em suas brincadeiras. O que deixa os responsáveis e os colégios para lá de preocupados, já que a série faz uso de brincadeiras infantis para construir uma narrativa violenta em um jogo que dá ao vencedor uma fortuna, enquanto mata os que são eliminados no processo.

A curiosidade das crianças se dá também pela facilidade ao acesso na plataforma de streaming, neste caso específico a Netflix, através da conta dos pais, ou pelo bombardeio de imagens relacionadas à série que tem circulado na internet. E como faz associação com brincadeiras que elas conhecem, aumenta a curiosidade.

Com isso, muitas crianças estão assistindo ao Round 6 e outras produções inadequadas para suas idades. O que, segundo especialistas, pode impactar no desenvolvimento psíquico e levar as crianças a reproduzirem os conteúdos de tais filmes e séries.

A psicóloga Iolete Ribeiro defende que o respeito à classificação dos conteúdos aos quais crianças e adolescentes têm acesso é indispensável. "O desenvolvimento psíquico de criança e adolescente difere em vários domínios psicológicos do desenvolvimento adulto. Então, o modo de pensar e de interpretar é característico e vai passando por transformações."

Ela explica que a autonomia intelectual para distinguir o que é realidade e o que é fantasia está em formação em crianças de menos de 12 anos. Por isso, elas ainda não conseguem analisar o efeito das escolhas que fazem, nem mesmo têm capacidade para interpretar esses conteúdos de modo que não tragam prejuízos para seu processo de desenvolvimento.

No Brasil, as produções audiovisuais veiculadas na TV, em cinemas, distribuídos digitalmente ou por outros meios de comunicação precisam ser devidamente classificadas de acordo com a faixa etária indicada. A orientação é do Ministério da Justiça e está descrita no guia prático de classificação indicativa

Apesar disso, o consumo de conteúdos inadequados não é proibido, desde que seja permitido por um responsável legal que assuma os riscos da exposição não indicada.

No caso de crianças maiores, pré-adolescentes e adolescentes, a psicóloga Alessandra Augusto, diz que os pais precisam saber o que os filhos assistem, até para ter um julgamento melhor. "Proibir não é a melhor alternativa, até porque aquilo que é proibido acaba despertando maior curiosidade. É natural que pré-adolescentes a partir dos 11 anos manifestem o desejo de ver uma série de sucesso. Mantê-los em uma espécie de bolha não é saudável, porque, se assim o desejarem, vão dar um jeito de assistir no celular do amigo, por exemplo", comenta.

Ela aconselha que os pais assistam Round 6 junto com os filhos para abrir um canal de diálogo na família. Os episódios podem servir de tema para conversas sobre comportamentos adequados ou não, linguajar empregado e até como uma forma de despertar o interesse do pré-adolescente para atividades que tenham a ver com a série, como o idioma coreano, cultura asiática ou artes marciais. Mas a decisão é responsabilidade de cada família. Até porque, uma vez que seja permitido o acesso a esse tipo de conteúdo deverá haver, também, uma conversar para esclarecer que se trata de uma ficção e não deve ser reproduzido na vida real.

Ou seja, é importante que haja um controle, ou, no mínimo, orientação sobre o acesso a conteúdos sensíveis por crianças.

*Com informações BBC News e G1

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